Chuvas intensas e rompimentos de barragens são as principais preocupações dos investidores e das comunidades atingidas pela Vale S.A.
As comunidades atingidas pela mineração no estado brasileiro de Minas Gerais e seus aliados da sociedade civil alertam sobre os riscos que as mudanças climáticas representam para as operações da gigante mineradora do Brasil, VALE S.A. As mudanças climáticas estão causando chuvas intensas cada vez mais frequentes no Brasil. Essas chuvas sobrecarregam ainda mais as instalações de contenção que a VALE S.A utiliza para gerenciar resíduos tóxicos da mineração. As preocupações também alcançaram os investidores da empresa.
A mineração gera enormes quantidades de resíduos tóxicos, ou rejeitos. Esses resíduos tóxicos permanecem no sítio para sempre; portanto, sua contenção segura é uma parte importante de qualquer operação de mineração. As instalações de contenção de rejeitos devem ser capazes de resistir às mudanças nas condições climáticas, a fim de proteger as comunidades e o meio ambiente, incluindo as gerações futuras. Quando essas instalações falham, a água poluída ou a lama tóxica podem colocar em risco vidas, o abastecimento de água potável e os ecossistemas a jusante.
Tribunal suspende licença de mineração da VALE S.A. devido a preocupações climáticas
Com base em preocupações relacionadas às mudanças climáticas, em dezembro de 2025, um tribunal federal determinou a suspensão da licença ambiental para a ampliação do complexo Germano na mina da Samarco, uma joint venture entre a VALE S.A. e a BHP, no município de Mariana, Minas Gerais.
Mariana foi o local do rompimento da barragem de rejeitos, considerada o pior desastre ecológico registrado no país. Em 3 de novembro de 2015, uma onda de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração matou 19 pessoas e contaminou 668 km de rios e bacias hidrográficas antes de finalmente chegar ao Oceano Atlântico. Os rejeitos se espalharam por 39 municípios, desalojaram 500 famílias e, no total, afetaram 3 milhões de pessoas que viviam nas bacias hidrográficas que foram contaminadas.
A VALE S.A e a BHP propuseram a expansão das operações de mineração no local, o que incluiria novas barragens de rejeitos. Uma ação popular movida por moradores da comunidade de Bento Rodrígues, uma das cidades destruídas pelo rompimento de 2015, alegou que a empresa de mineração não levou em consideração de forma adequada a probabilidade de que chuvas futuras excedam os níveis históricos devido às mudanças climáticas. O Instituto Cordilheira, uma organização brasileira que trabalha com comunidades impactadas pela mineração, afirma que esta é a primeira vez que uma decisão judicial suspende atividades de mineração no estado de Minas Gerais com base na falta de estudos a respeito das mudanças climáticas.

Duas instalações de mineração da VALE S.A. sofrem vazamentos
As preocupações em torno dos impactos das mudanças climáticas nas operações da VALE S.A. se intensificaram em janeiro de 2026, quando duas estruturas de mineração vazaram e inundaram a Mina de Fábrica e a Mina de Viga da VALE S.A., nos municípios de Congonhas e Ouro Preto, Minas Gerais. Essa enchente começou exatamente seis anos depois da catastrófica ruptura da barragem de rejeitos na mina da VALE S.A. em Brumadinho (MG), que matou 272 pessoas. Em Congonhas (MG), 262,000 metros cúbicos de sedimentos e água fluíram para a área ao redor. Esses vazamentos inundaram outra mina, propriedade da CSN, a jusante e se espalharam por rios e córregos. A empresa foi multada pelo governo estadual de Minas Gerais e pela prefeitura de Congonhas.

Especialistas e investidores questionam a segurança à medida que as chuvas aumentam
Organizações que monitoram as operações da VALE S.A. têm receio de que a empresa não esteja preparada para eventos climáticos associados ao aumento das chuvas. Daniela Campolina, do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão: Educação, Mineração e Território (EduMiTe), afirmou “É imprescindível que a VALE S.A. revise suas estruturas de contenção de rejeitos considerando as mudanças climáticas e cumpra rigorosamente a legislação de enquadramento— condição básica para a gestão de riscos e a transparência. Os eventos de 25 de janeiro de 2026 ocorreram mesmo sem a caracterização de chuvas extremas, o que indica uma insuficiência dos parâmetros de segurança adotados e amplia a sensação de insegurança nos territórios. Muitas das barragens são antigas, construídas antes mesmo de políticas nacionais de meio ambiente e de segurança de barragens. Padrões de segurança deficientes geram riscos para longas extensões de rios estratégicos para regiões densamente povoadas de Minas Gerais e do Brasil.” O EduMiTe catalogou o número de barragens de rejeitos e os riscos associados a elas no Estado de Minas Gerais.
A resiliência às mudanças climáticas também é uma grande preocupação para os investidores da VALE S.A. O Local Area Pension Fund (LAPFF), um grupo de investidores sediado no Reino Unido que representa governos locais e cujos membros possuem ativos que ultrapassam 425 bilhões de libra esterlinas, questionou a preparação da VALE S.A. para lidar com os impactos dos padrões climáticos imprevisíveis decorrentes das mudanças climáticas em suas operações de mineração.
Segundo o vereador Doug McMurdo, presidente da LAPFF, “Os vazamentos de água ocorridos em janeiro de 2026 nas instalações da VALE S.A. em Fábrica e Viga, em Minas Gerais, que de acordo com as autoridades causaram danos ambientais após atingirem o rio Maranhão, foram motivo de grande preocupação. O momento, que coincidiu com o aniversário do desastre de Brumadinho em 2019, foi particularmente difícil. Além do recente escrutínio jurídico e regulatório sobre a proposta de expansão do Complexo Germano da Samarco na região de Mariana (MG), esses eventos levantam sérias questões sobre como a adaptação climática e os riscos físicos estão sendo governados e gerenciados nas operações da VALE S.A. Como investidores de longo prazo, o LAPFF espera que a VALE S.A. demonstre claramente como está fortalecendo a resiliência climática de seus ativos e infraestrutura, incorporando riscos relacionados ao clima e à água nas aprovações de projetos e decisões de expansão, e garantindo que esses riscos — e, principalmente, suas implicações para as comunidades, o meio ambiente e os direitos humanos — sejam sujeitos a uma supervisão robusta, transparente e responsável por parte do Conselho de Administração.”
As minas da VALE S.A representam um risco contínuo e contribuem às mudanças climáticas
Um relatório publicado pela Earthworks em 2025 destacou os riscos contínuos para o meio ambiente, as comunidades e os trabalhadores associados às operações da VALE S.A. em Minas Gerais. O relatório também apontou que as operações da VALE S.A. contribuem para agravar as mudanças climáticas. A VALE S.A. está na lista das 20 maiores empresas emissoras de gases de efeito estufa do mundo, de acordo com o MSCI Sustainability Institute Net-Zero Tracker — a única empresa brasileira na lista.